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‘Vá pra porra todo mundo’: despedida original de artesão que não queria hipocrisia no cemitério

Uma vida vivida com originalidade teria que terminar da mesma forma! Essa era a certeza que os filhos do artesão Antônio Alexandre Teixeira tinham ao buscar uma frase que verdadeiramente capturasse a essência do pai, refletisse sua autenticidade e fosse escrita na lápide do artesão no cemitério. “Se for a cara dele, tinha que ser algo tipo ‘vai para a porra, seu sacana'”, disse o filho mais velho, Alessandro Teixeira, famoso artista plástico de 47 anos. A decisão foi unânime no que diz respeito a expressões convencionais como ‘saudade eterna’ que não estariam à altura da personalidade de Antônio, que faleceu aos 68 anos, no dia 27/1.

Desta forma, o túmulo de Antônio recebeu uma inscrição que certamente se destaca no cemitério Quinta dos Lázaros, onde foi sepultado no domingo, 28 de janeiro. “Vá pra porra todo mundo”, proclama a lápide, de forma direta e simples. Mesmo diante do temor de críticas, o funcionário responsável pela inscrição ponderou com a família e chegou a uma versão menos agressiva da frase original: “vão pra porra, seus sacanas” transformou-se em “vá pra porra todo mundo”.

Antônio faleceu subitamente, o que deixou a família perplexa. Na manhã do sábado, ele estava bem, tomando café com seu filho que morava com ele. Às 11h, foi encontrado caído. Dada sua condição cardíaca, a suspeita da família recai sobre um possível infarto.

A incerteza pairava sobre a reação das pessoas no enterro, mas a frase na lápide revelou-se acertada. “Eu tive uma grata surpresa que todo mundo riu. Todo mundo gostou, porque é realmente a cara dele. As pessoas riam e falavam: ‘é a última de Antônio'”, relata Alessandro.

A despedida, mesmo carregada de incertezas, proporcionou conforto à família. Os dizeres, que poderiam ser vistos como polêmicos, desempenharam um papel importante nesse momento delicado. “Esse final foi como ele. Fiquei pensando depois que era muito ele essa situação. Ele reclamava e você tentava não rir. Ele fazia umas comparações que você não tinha como manter a situação séria”, complementa Alessandro.

A trajetória de Antônio, nascido em Encarnação, Salinas da Margarida, e criado no Curuzu, Salvador, é recordada com carinho. Sempre mencionava a Rua do Progresso no bairro do Curuzu, seu lar nas duas primeiras décadas de vida, antes de mudar-se para Pernambués.

O aprendizado do ofício de artesão foi adquirido com o cunhado, em tenra idade. Ao atingir a maturidade, por volta dos 18 anos, optou por seguir o curso de eletricista industrial no Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), permanecendo nessa área até os primórdios da década de 1990. Contudo, as dificuldades em encontrar oportunidades de trabalho o levaram a retornar às suas raízes como artesão.

Foi nesse período que ele iniciou a instrução de seus filhos no ofício, os quais seguiram seus passos na arte. “Ele percebeu a crescente demanda por esculturas dos orixás e decidiu criar um modelo para o seu trabalho. Essa iniciativa se tornou o carro-chefe, enquanto os paramentos metálicos tornaram-se os itens mais solicitados em Salvador”, relata Alessandro, referindo-se aos acessórios essenciais na indumentária dos orixás. Assim, ele se tornou conhecido como Antônio dos Orixás. Pouco depois, recebeu um título da ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá até seu falecimento, em 2018.

Por fornecer paramentos para muitos adeptos do terreiro, Antônio foi carinhosamente chamado por ela de Alakoro, que significa Ogum ferreiro. Este também se tornou o nome de seu ateliê em Pernambués. Agora, seus filhos devem dar continuidade ao legado.

Entretanto, para seus entes queridos, o aspecto mais marcante de Antônio era sua personalidade peculiar. “Minha prima mencionou que ele seria digno de um personagem saído das páginas de Jorge Amado, e ela está certa”, compartilha Alessandro. A nora, também artista plástica, Monica Vieira, 37, descreve o sogro como alguém capaz de transitar do riso à ira em questão de minutos. “Ele era muito brincalhão, mas também bastante direto em expressar seu afeto pelas pessoas. Não era do tipo que dizia ‘eu te amo’ com frequência”, brinca.

Sagitariano, Antônio costumava brincar com o símbolo de seu signo – o centauro. Quando estava de bom humor, afirmava estar com sua “parte humana”, mas quando estava mal, atribuía suas ações à sua “parte cavalo”. Ele apreciava fazer paródias com músicas infantis da época do programa da Xuxa. “Ele criava paródias bastante divertidas e depois provocava: ‘será que minhas músicas são tão infantis que eu deveria aparecer no programa da Xuxa?”, relembra Monica, que às vezes era confundida com uma das filhas dele. “Ele tinha um coração generoso e amava intensamente”, acrescenta.

Viúvo por duas vezes, Antônio deixou três filhos e quatro netos. A família espera que a lápide – memorável como é – possa trazer um sorriso aos visitantes do cemitério. “Para quem quiser compartilhar uma risada com ele, é só ir até lá. Será uma extensão de sua história para todos os que vierem para um enterro. Uma despedida reconfortante”, conclui Alessandro, o primogênito.

Crédito da imagem: Arisson Marinho

Fonte: Correio24horas