Apoiador do “kit” sem comprovação científica, Médico negacionista teve morte guardada em segredo

Uma notícia tem repercutido nas principais manchetes desta quarta-feira (22). A morte do médico pediatra e toxicologista Anthony Wong, 73 anos, no dia 15 de Janeiro deste ano, tem sido um mistério. Segundo a família, Anthony foi hospitalizado com queda de pressão e mal-estar. Já no hospital teve o diagnóstico de úlcera gástrica e hemorragia digestiva.

“Durante a internação, evoluiu com quadro de descompensação do padrão cardíaco e padrões de fibrilação atrial”, diz o texto. Em suma, o médico teve fortes alterações no ritmo cardíaco e depois sofreu uma parada cardiorrespiratória. A nota não esclarece que Anthony foi internado com sintomas de Covid-19 e que foi mais uma vítima da pandemia.

Anthony era conhecido nas redes sociais bolsonaristas e por ser negacionista. Fazia pouco caso da pandemia e da vacinação. Referência no meio acadêmico, era solicitado para se manifestar sobre a Covid-19 e suas consequências. Criou canais no YouTube e Instagram para falar sobre o assunto, mas quando faleceu a família retirou do ar todos os canais de divulgação.

Em uma de suas últimas declarações públicas, Anthony defendeu a chamada “intervenção vertical”, que é o isolamento apenas de idosos e gestantes, e o retorno à normalidade para as demais pessoas. O médico ainda disse que o brasileiro tinha imunidade alta contra o coronavírus: “Se fossem feitos testes como os que foram feitos em outros países, nós verificaríamos talvez que o índice de imunidade da população em geral também é alta, especificamente para a Covid-19”, contou. O Brasil é o segundo país com mais mortes em consequência da Covid-19.

Quando foi internado no dia 17 de novembro no hospital Sancta Maggiore do Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, Anthony Wong informou que estava com sintomas de Covid-19 havia oito dias e que estava fazendo uso de hidroxicloroquina, medicamento sem eficácia comprovada pela ciência. Foi confirmada a presença de Sars-CoV-2 após um exame de PCR feito no hospital. Anthony havia contraído a doença pela segunda vez, na primeira, em abril de 2020, o médico havia ficado assintomático e se recuperou bem.

Anthony Wong, de acordo com o prontuário, consentiu ser medicado com o “kit Covid” da Prevent Senior, composto de hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Este tratamento permaneceu por quatro dias e o médico passou a fazer uso de outros medicamentos sem comprovação científica. Foi medicado com heparina inalatória, cujo efeito em infecções virais é desconhecido, e metotrexato venoso, tradicionalmente prescrito no tratamento de doenças autoimunes e inflamatórias crônicas, como artrite, mas sem eficácia comprovada contra a Covid-19.

Em conjunto a estes medicamentos relatados, o médico recebeu mais de vinte sessões de ozonioterapia retal, tratamento que até mesmo o Ministério da Saúde no governo Bolsonaro não aconselha. O Ministério da Saúde emitiu uma nota em 2020 que diz “O efeito da ozonioterapia em humanos infectados por coronavírus (Sars-CoV-2) é desconhecido e não deve ser recomendado como prática clínica ou fora do contexto de estudos clínicos.”

Apesar de todas estas medicações administradas, Anthony foi intubado no dia 21, quatro dias depois de sua internação. O médico desenvolveu uma hemorragia digestiva no nono dia de tratamento, que foi revertida em menos de 24 horas após transfusões de sangue. Após alguns tratamentos terem sido feitos e a necessidade do paciente se submeter a uma traqueostomia, que consiste na inserção de um tubo na traqueia para permitir a respiração, Anthony foi infectado por uma pneumonia bacteriana que não respondia a medicação administrada pela equipe médica. A infecção se generalizou pelo corpo do paciente, o que resultou em um choque séptico, falência dos órgãos e uma parada cardiorrespiratória. Anthony Wong morreu às 17h25 do dia 15 de janeiro.

O documento que atestava a morte do médico deveria conter a informação que Anthony foi infectado por Covid-19 e que todas as complicações seguintes só vieram em consequência do vírus. “A declaração de óbito deveria mostrar o código para Covid senão como causa básica da morte, ao menos como causa secundária”, disse o epidemiologista Wanderson Oliveira, responsável por elaborar os protocolos de manejo de corpos do Ministério da Saúde quando era secretário de Vigilância em Saúde, na gestão de Luiz Henrique Mandetta.

O atestado de morte do médico trouxe apenas as doenças que vieram em decorrência da Covid-19. Em uma parte do documento que traz a causa da morte diz: choque séptico, pneumonia, hemorragia digestiva alta e diabetes mellitus. Antes de ser internado, o médico tinha apenas diabetes leve e vinha se tratando adequadamente. Os problemas relatados no documento apareceram em razão de complicações da Covid -19. Por orientação da direção do hospital foi realizado um novo PCR de emergência em que o resultado sairia mais rápido, mas não foi anexado ao prontuário.

Anthony Wong foi sepultado no dia 16 de janeiro no Cemitério do Morumbi, em São Paulo. Como a causa real da morte do médico foi omitida, os protocolos de prevenção e disseminação da Covid-19 não foram observados durante a cerimônia.

Da redação do Acontece na Bahia

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Categoria(s): Destaque, Nacional.

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