Segundo antiga professora de Lázaro, “a maioria dos alunos tinha medo dele” na época da escola

Reservado e respeitador, mas estourado quando não respeitado. Assim Lázaro Barbosa de Souza, 33 anos, é descrito por Ronita do Nascimento Silva Santos, 52, antiga professora de ensino fundamental do homem ao Jornal de Brasília. De acordo com a docente, o fugitivo que hoje mobiliza mais de 200 policiais do DF e de Goiás não gostava de confusão, mas “a maioria dos alunos tinha medo dele”. Isso porque já rodavam pelo Colégio Municipal Márcia Maria de Carneiro Mércia, em Barra do Mendes, no interior baiano, as histórias de confusões que o garoto franzino se metia quando lhe tirava a paciência.

Muito próximo da professora, garante ela própria, ele se acalmava quando davam-lhe atenção. “Não era nada que uma boa conversa não resolvesse. Ele não tinha muitos amigos na escola, eu me preocupava muito”, conta a educadora. Dado como natural de Barra do Mendes, Lázaro, na verdade, era de do povoado Melancia, na zona rural da cidade. De lá, ele saia cedo da manhã para chegar a tempo do sinal na escola, que batia às 7h. Assim, havia sempre atenção à alimentação do menino. “Sempre eu e a diretora tínhamos a preocupação de saber se ele tinha tomado café, sempre ia ajeitando ele”, conta Ronita.

O jovem tratava professores e pessoas mais velhas por “senhor” ou “senhora”. Lázaro tinha um apelido especial para Ronita, a quem tinha em alta estima. “Ele me chamava só de ‘pró’, que vem de ‘professora’”, relembra. “Mesmo depois de sair da escola, quando me via na rua, lá vinha ele falando ‘e aí, pró’”, conta. Conforme o relato da educadora, a única vez em que o apelido de aluno para mestra não foi usado de forma carinhosa se deu quando o garoto apareceu na escola com alguns ferimentos no corpo. “Uma das vezes ele chegou e estava machucado. Ele disse que tomou uma surra de chicote de cavalo”, revela Ronita.

“Coisas da vida, pró”

A professora ficou com um pé atrás com a resposta do garoto. Quando pediu para que ele levantasse a camisa, a visão a chocou. “Lá estavam as lapadas”, diz a mulher, que ainda se abala com o relato. À época, não foi possível trabalhar. “Nesse dia eu fiquei muito mal, não dei nenhuma aula. Fiquei conversando com ele, vendo se ele se abria, mas ele não falava. ‘Coisas da vida, pró’, era tudo que ele falava”, relembra a antiga professora do homem que hoje dribla policiais de duas unidades federativas.

A docente crê que as surras torpes vieram dos próprios pais, mas o garoto nunca revelou quem o batera. As suspeitas recaem sobre os progenitores porque, ao fim e ao cabo, não participavam da vida do filho. Lázaro, segundo Ronita, parecia crescer sem amor. “A gente tinha muito pouco contato com os pais dele. Quando ele dava muito trabalho a gente mandava chamar, mas eles não compareciam”, lembra Ronita. Ela, ao contrário, tapou um buraco na vida do jovem. “Eu era muito presente na vida dele; às vezes o via angustiado e sentava, conversava com ele”, relembra a “pró”.

Tamanho carinho foi posto à prova quando Lázaro se tornou, pela primeira vez na vida, o centro das atenções. Em 2008, já aos 19 anos, ele estuprou uma mulher no povoado da Melancia e, ao ser interpelado por um familiar, encostou a espingarda no peito do homem e ceifou-lhe a vida com um tiro à queima-roupa. “Quando ele matou essas duas pessoas, eu fiquei muito angustiada”, lamenta Ronita.

Reincidente
Procurado pela polícia local, ele se embrenhou nas matas baianas, e a caçada só terminou porque ele temia a morte. “Teve um tempo que os policiais estaavm atrás dele, e ele foi até a minha casa”, revela a mulher. “Não chegou a me ver, pois estava muito acuado pelos policiais”, diz a docente, que já era casada com um hoje sargento da PM baiana – parte ativa nas buscas por causa do homicídio. “Ele achou que, se ele viesse aqui para eu me apresentar junto com ele, eu não ia deixar fazerem algo; mas aí ele sumiu e se entregou depois”, finaliza a professora.
Agora, Lázaro é procurado por outros homicídios, e desta vez está longe da “pró” que lhe guiou nos primeiros anos da adolescência. Quase 20 anos depois, a vida do homem continua num looping criminal. As buscas pelo autor de ao menos quatro assassinatos e diversas invasões a domicílios se estendem há sete dias, com algumas trocas de tiros, policial ferido no rosto por arma de fogo e diversos rastros de uma relação entre o fugitivo e o satanismo, o que joga ainda mais mística sobre o caso.

Com textos e informações do Jornal de Brasília

Categoria(s): Destaque, Nacional.

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