Glória Maria deu visibilidade aos obstáculos que precisou enfrentar

Ao longo das últimas cinco décadas, o Brasil testemunhou a transformação de uma jovem negra, filha de uma dona de casa e de um alfaiate, em um ícone de talento e de sucesso no jornalismo. Mas a Glória Maria também conquistou respeito e admiração com a visibilidade exemplar que deu aos obstáculos que precisou enfrentar.

Glória Maria mostrou um caminho de possibilidades.

“Hoje, a gente perde fisicamente talvez o maior símbolo para nós, mulheres negras. O maior símbolo de poder, de resistência, de possibilidades. O que ela deixa para a gente é um legado imenso, gigante, lindo, perene, para gente seguir o caminho que ela pavimentou para gente”, diz a atriz Taís Araújo.

“Ela foi ela mesma, não cedeu às pressões do que as pessoas esperavam dela, do que certa militância esperava dela. E ela se colocava com esse jeito, eu estou aqui sendo quem eu sou e isso é libertador, e isso ajuda a gente a se libertar”, afirma a filósofa Djamila Ribeiro.

O cantor Gilberto Gil disse, em uma rede social, que “durante muitos anos ela foi umas das poucas referências negras no telejornalismo e seu talento e profissionalismo extraordinários lhe renderam um merecido reconhecimento”.

A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, afirmou disse que “quem é mulher negra sabe da importância de tê-la visto na televisão. E que Gloria sempre será lembrada como sinônimo de competência”.

O ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, também falou sobre Glória.

“Acho que não há uma pessoa nesse país, especialmente as pessoas negras, que não se sentiram de alguma maneira contempladas pelo trabalho de Glória Maria. Glória Maria representa uma abertura de caminhos, de possibilidades para muitas pessoas no Brasil”, afirma.
“Ela construiu um novo paradigma. Ela vem de um tempo em que os negros não tinham vez, não tinha voz e que, por conta disso, achavam que era vítima de um determinismo, nada mais podia ser feito. E quando ela chega, ela diz: não é possível fazer a mudança, fazer a transformação e primeiramente, nós precisamos acreditar, mas tanto quanto acreditar, é preciso fazer o bom combate, fazer a luta”, diz o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente.
O cantor Emicida publicou: “Se hoje tem um Emicida é porque antes existiu uma Glória Maria”.

Frase que ele disse à própria Glória em uma conversa emocionante no programa “Papo de segunda”, do GNT, em março de 2021:

“De alguma forma a minha pele já sabia que a experiencia não seria fácil. E quando eu via a Glória Maria todo domingo na televisão, eu tinha nela uma espécie de referência de possibilidades, que eu não podia desistir porque a Glória Maria era a pessoa que me dizia todo domingo que era possível vencer nesse lugar”, disse o rapper.
“Minha avó me ensinou uma coisa que ficou para minha vida inteira e levo até hoje: nossa história é uma história de falta de liberdade, de escravidão. A única coisa que você não pode permitir é que te coloquem qualquer tipo de corrente”, disse Glória na ocasião.

Muito antes da gente se acostumar a ouvir, com tanta frequência, a palavra representatividade, Glória Maria já era isso. Uma mulher preta mostrando sua competência, beleza e liberdade no horário nobre da TV. Ela ocupou espaços, abriu portas e cativou a admiração de muita gente que se viu nela na tela da televisão.

“A questão do cabelo é muito forte para gente, e a gente viu Glória de cabelo grande, curto, alisado, porque se ela é a representação da possibilidade, ela realmente podia tudo e ela podendo a gente acredita que a gente pode também”, ressalta a atriz e apresentadora Luana Xavier.

“Se hoje tem eu, outros jornalistas, comunicadores, pessoas pretas de favela que lutam diariamente contra o racismo nesse país, sem dúvidas que a Glória abriu esse espaço”, afirma o jornalista René Silva, da Voz das Comunidades.

Paulo Vieira publicou: “Ela mudou a história do povo preto na televisão. Minha referência como jornalista, Glória ocupava todos os espaços como uma realeza”.

“Ela ocupava e propunha para todo mundo a liberdade para as pessoas negras e para as meninas negras. Para menina que eu fui, para as meninas que estão por aí, para as jornalistas, ela era esse farol grandioso”, destaca a presidente da Anistia Internacional/Brasil, Jurema Werneck.
Esta quinta-feira, 2 de fevereiro, Dia de Yemanjá, a Rainha do Mar, força da natureza, assim como foi Glória Maria, reverenciada, no Rio, pelo grupo Afoxé Filhos de Gandhi: “Glória Maria presente, Glória Maria presente”.

E na Bahia, pelo cantor Carlinhos Brown e pela ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Fonte: G1