Gêmeas roubadas após nascimento se reencontram graças a vídeo em rede social

Amy e Ano, duas irmãs gêmeas entrelaçadas pela coincidência e separadas pelo destino, protagonizam uma saga tão complexa quanto comovente. Nascidas idênticas, mas brutalmente separadas de sua mãe ao nascer e dispersas para diferentes famílias, suas vidas pareciam traçadas por linhas divergentes. No entanto, o destino reservou-lhes um encontro surpreendente, repleto de reviravoltas tão emocionantes quanto perturbadoras.

O elo entre as irmãs, antes desconhecido, desvelou-se através de uma peculiar junção de eventos: um programa de talentos televisivo e a onipresença das redes sociais. O palco foi a TV e a plataforma, o TikTok.

Numa investigação que remonta ao seu passado obscuro, Amy e Ano descobriram-se entre os muitos bebês que foram vítimas de um esquema cruel na Geórgia, onde recém-nascidos eram roubados de maternidades e vendidos a famílias desconhecidas. O choque e a urgência pela busca da verdade impulsionaram-nas numa jornada intensa e cheia de angústia, culminando em sua atual busca por respostas.

Num hotel em Leipzig, Alemanha, Amy enfrenta seus medos enquanto Ano tenta controlar a ansiedade, ambas conscientes de que este momento pode definir o curso de suas vidas. O silêncio tenso é quebrado pelas palavras de Amy, expressando seu receio: ‘Não dormi a semana toda. Esta é minha chance de finalmente obter algumas respostas sobre o que aconteceu conosco.’ Enquanto isso, Ano, em meio a vídeos do TikTok, confronta o rosto de uma possível vendedora, uma peça-chave nesse quebra-cabeça emocional.

A jornada das irmãs, permeada por incertezas e uma busca incessante por sua verdadeira identidade, é um testemunho das falhas e injustiças de um sistema que permitiu tais atrocidades. Dezenas de milhares de histórias semelhantes ecoam na Geórgia, clamando por justiça e esclarecimento, enquanto os responsáveis permanecem impunes.

A descoberta casual de Amy, aos 12 anos, assistindo a Georgia’s Got Talent, e o subsequente vídeo compartilhado no TikTok, representam momentos cruciais nessa narrativa complexa. O destino, muitas vezes tecido pelas mãos da coincidência, guiou Amy e Ano por uma jornada tortuosa de autodescoberta, culminando neste ponto crucial: o encontro iminente com sua mãe biológica.

A história de Amy e Ano é um lembrete sombrio da fragilidade da existência humana e da força inquebrável do vínculo familiar.

A 320 quilômetros de distância, na cidade de Tbilisi, uma jovem de 19 anos chamada Ano Sartania recebeu de um amigo um vídeo que despertou sua curiosidade. Ao ver a garota com piercing na sobrancelha, ela se surpreendeu com a semelhança. Uma tentativa de rastreá-la na vastidão da internet foi frustrada, levando-a a compartilhar o vídeo em um grupo de WhatsApp da universidade, na esperança de obter alguma pista. Foi então que alguém que conhecia Amy viu a mensagem e estabeleceu o elo entre as duas por meio do Facebook.

O reconhecimento foi imediato para Amy, que identificou em Ano a garota que vira anos atrás no programa Georgia’s Got Talent. ‘Estou te procurando há tanto tempo!’, escreveu Amy em uma mensagem. ‘Eu também’, respondeu prontamente Ano.

Nos dias seguintes, uma série de descobertas revelou a extensão das coincidências entre elas, embora algumas questões permanecessem sem resposta. Ambas haviam nascido na maternidade de Kirtskhi, no oeste da Geórgia, embora seus registros de nascimento indicassem datas diferentes de nascimento. Aparentemente desconexas, essas revelações apenas alimentaram o mistério que envolvia suas vidas. ‘Cada nova descoberta sobre Ano parecia tornar tudo ainda mais estranho’, refletiu Amy.

O encontro marcado foi um marco crucial nessa jornada de autodescoberta. No topo da escada rolante da estação de metrô Rustaveli, em Tbilisi, Amy e Ano finalmente se viram pessoalmente. O choque da semelhança física foi avassalador. ‘Foi como olhar para um espelho’, descreveu Amy. ‘Eu sou ela e ela sou eu.’

Apesar de suas diferenças individuais, o elo inegável entre elas se solidificou. ‘Não sou muito de abraços, mas abracei ela’, confessou Ano.

A decisão de confrontar suas famílias foi uma etapa crucial nessa jornada tumultuada. O véu que encobria suas origens foi finalmente levantado, revelando uma verdade dolorosa: foram adotadas separadamente, com apenas algumas semanas de diferença, em 2002. As emoções foram intensas. Amy, vestida de preto da cabeça aos pés, não conseguiu conter as lágrimas ao confrontar a realidade de sua vida. ‘É uma história maluca’, admite ela. ‘Mas é verdade.’

Para Ano, o desejo era simplesmente superar as dificuldades e seguir em frente. ‘Estava zangada e chateada com minha família, mas só queria encerrar as conversas difíceis para que todos pudéssemos seguir adiante.’

A saga de Amy e Ano é uma narrativa comovente sobre a busca pela identidade e a reconciliação com o passado.

“As gêmeas foram confrontadas com a descoberta chocante de que algumas informações cruciais em suas certidões de nascimento estavam equivocadas, incluindo a data de seus nascimentos.

A impossibilidade de conceber filhos levou a mãe de Amy a uma dolorosa encruzilhada, quando uma amiga lhe revelou a presença de um bebê indesejado no hospital local. Sob o pressuposto de que poderia dar a essa criança um lar amoroso, ela concordou em custear despesas médicas em troca da oportunidade de criar a criança como sua própria filha.

Curiosamente, a mãe de Ano também compartilhou uma narrativa semelhante, aludindo a uma circunstância quase idêntica. Ambas as famílias adotivas, alheias à existência da outra, pagaram somas consideráveis pela adoção de suas filhas. No entanto, afirmam não ter percebido a ilegalidade subjacente à transação. Num período de turbulência política na Geórgia, as autoridades hospitalares estavam envolvidas no processo de adoção, o que levou as famílias a acreditarem que estavam agindo dentro dos limites legais.

O véu do segredo envolvendo o valor monetário pago por cada adoção permanece intocado, mantendo-se como um mistério envolto em incertezas.

As gêmeas, ávidas por desvendar os mistérios de seu passado, ansiavam por compreender se a motivação por trás da separação delas de seus pais biológicos teria sido meramente financeira. Enquanto Amy nutria o desejo de encontrar sua mãe biológica e desvendar a verdade por trás de sua história, Ano hesitava. ‘Por que buscar aqueles que podem ter nos traído?’, questionava ela.

Determinada a esclarecer o enigma de suas origens, Amy recorreu a um grupo no Facebook dedicado a reunir famílias georgianas cujas crianças foram suspeitas de terem sido adotadas ilegalmente. Foi através dessa plataforma que uma jovem na Alemanha compartilhou uma história extraordinária: sua mãe havia dado à luz gêmeas no Hospital Maternidade Kirtskhi em 2002, embora tenha sido informada de que as crianças haviam falecido. O desfecho dessa narrativa veio à tona por meio de testes de DNA, confirmando que a jovem era, de fato, irmã das gêmeas.

Enquanto Amy estava ávida para conhecer sua mãe biológica, Ano expressava cautela e desconfiança em relação ao encontro iminente. ‘Essa pessoa poderia ter nos vendido’, alertou Ano. Apesar de suas reservas, ela concordou em acompanhar Amy em sua jornada rumo à Alemanha, oferecendo-lhe apoio e solidariedade.

O grupo do Facebook que serviu como catalisador para essa revelação emocionante, denominado Vedzeb (‘Estou procurando’ em georgiano), emergiu como um farol de esperança para inúmeras famílias em busca de respostas. Com mais de 230 mil membros, esse grupo, juntamente com plataformas de testes de DNA, lançou luz sobre um capítulo sombrio da história da Geórgia, evidenciando a dor e a angústia de tantos que foram separados de seus entes queridos.”

O Vedzeb, uma iniciativa pioneira criada pela jornalista Tamuna Museridze em 2021, surgiu como uma luz na escuridão para muitos que buscavam suas raízes familiares. O impulso inicial veio da própria jornada pessoal de Tamuna, que se deparou com a desconcertante descoberta de sua adoção ao encontrar detalhes incorretos em sua certidão de nascimento enquanto organizava os pertences de sua mãe falecida.

O que começou como uma busca íntima pela própria identidade logo se transformou em um movimento de grande alcance, revelando um escândalo de proporções alarmantes: um mercado clandestino de adoção que atravessou décadas e abalou as estruturas sociais da Geórgia. Com determinação incansável, Tamuna e seu grupo ajudaram a reunir centenas de famílias, embora ela mesma ainda não tenha encontrado sua própria origem.

A dimensão sombria desse comércio ilegal, que se estendeu desde o início da década de 1950 até 2005, é difícil de conceber. Tamuna descreve-o como um sistema meticulosamente organizado, liderado por criminosos que se infiltraram em todos os níveis da sociedade, desde indivíduos comuns até figuras proeminentes do governo. ‘A escala é inimaginável, foram roubados até 100 mil bebês. Foi sistêmico’, afirma ela.

No entanto, a verdade é obscurecida pela falta de acesso a documentos cruciais. Muitos pais, desesperados por respostas, foram confrontados com obstáculos ao buscar informações sobre seus filhos desaparecidos. Relatos perturbadores emergiram, incluindo a recusa em exibir os corpos dos bebês falecidos e a revelação de que supostos cemitérios em hospitais nunca existiram. Em alguns casos, os pais foram apresentados a bebês mortos que, na verdade, haviam sido congelados em necrotérios.

A comercialização de crianças não era uma transação barata; seu custo equivalia a um ano de salário médio na Geórgia. E os destinos das crianças eram diversos, algumas acabavam em famílias estrangeiras nos Estados Unidos, Canadá, Chipre, Rússia e Ucrânia.

Após 2005, a Geórgia tomou medidas para reprimir o tráfico de bebês, alterando sua legislação de adoção e fortalecendo as leis antitráfico em 2006. No entanto, para muitos como Irina Otarashvili, que deu à luz gêmeos em Kvareli, Geórgia, em 1978, as perguntas permanecem sem resposta, ecoando o desejo comum por justiça e esclarecimento.

Os médicos asseguraram a Irina que seus dois meninos haviam nascido saudáveis, porém, por razões inexplicáveis na época, foram separados dela. Três dias após o nascimento, veio o devastador golpe: a notícia de suas mortes súbitas, supostamente devido a complicações respiratórias. Irina e seu marido, imbuídos pela mentalidade da era soviética, aceitaram passivamente as palavras das autoridades médicas. “Você não questionava a autoridade naquela época”, relembra Irina, resignada à sua sorte.

O casal foi solicitado a trazer uma mala para o transporte dos corpos, seguindo o protocolo padrão da época. O médico enfatizou para que nunca abrissem a mala, alertando para a perturbação que a visão dos corpos poderia causar. Seguindo as instruções, Irina depositou sua confiança nas mãos daqueles que a cercavam, sem questionar.

Quatro décadas se passaram até que a filha de Irina, Nino, descobriu o grupo de Tamuna no Facebook, desencadeando uma série de questionamentos. “E se nossos irmãos não tivessem realmente morrido?”, ponderou Nino, alimentando uma esperança há muito adormecida. Em um ato de coragem e determinação, Nino e sua irmã Nana decidiram abrir a mala, preparando-se para confrontar décadas de incerteza.

O momento da revelação foi angustiante: ao abrir a mala, em vez de ossos, encontraram apenas gravetos. A realidade abrupta dessa descoberta deixou-as num estado de perplexidade, debatendo entre sorrisos e lágrimas. Uma investigação subsequente da polícia local confirmou que o conteúdo da mala não continha vestígios de restos humanos, apenas galhos de videira.

Agora, diante da iminente reunião com sua mãe biológica, Amy e Ano sentem uma mistura de emoções. Ano, momentaneamente dominada pela hesitação, pondera a possibilidade de desistir. No entanto, após uma pausa reflexiva, decide seguir adiante, determinada a enfrentar o que quer que o encontro traga.

Ao adentrarem o quarto, são recebidas calorosamente por Aza, sua mãe biológica, que as abraça com ternura. O momento é carregado de emoção, silêncio e lágrimas. Amy se deixa levar pelas lágrimas, enquanto Ano permanece serena, quase impassível, revelando uma faceta de sua personalidade que parece desafiadora.

Sentando-se juntas, as três mulheres compartilham um momento de encontro e compreensão, dando início a uma jornada de reconciliação e descoberta que promete mudar suas vidas para sempre.

Mais tarde, as gêmeas revelam que sua mãe biológica explicou que ficou gravemente doente após o parto, entrando em um estado de coma. Ao recobrar a consciência, foi informada pela equipe médica de que seus bebês haviam falecido logo após o nascimento. O reencontro com Amy e Ano trouxe um novo significado à vida dela.

Apesar de não terem uma relação próxima, as gêmeas ainda mantêm contato, evidenciando os laços que os eventos compartilhados criaram entre elas.

Em 2022, o governo georgiano iniciou uma investigação sobre o tráfico de crianças. No entanto, o processo enfrentou desafios significativos devido à antiguidade dos casos e à perda de registros históricos. A jornalista Tamuna Museridze compartilhou informações relevantes, mas até o momento não houve divulgação oficial do relatório do governo.

Apesar de quatro tentativas anteriores do governo para esclarecer os eventos, incluindo uma investigação em 2003 que resultou em prisões, houve pouca transparência sobre os desdobramentos. Em 2015, após outra investigação, surgiram relatos de que o diretor-geral da maternidade Rustavi havia sido preso, porém, posteriormente, foi inocentado e retomou suas funções.

A busca por justiça continua, e Tamuna Museridze e a advogada de direitos humanos Lia Mukhashavria uniram esforços para levar os casos de vítimas aos tribunais georgianos. Um dos principais objetivos é obter acesso aos documentos de nascimento das vítimas, uma tarefa dificultada pela legislação atual da Geórgia. Eles esperam que esse passo possa trazer algum conforto e resolução para as vidas afetadas.

Ano compartilha que sempre sentiu um vazio em sua vida, frequentemente sonhando com uma figura misteriosa que a questionava sobre seu dia. Esse sentimento de inquietação desapareceu quando encontrou Amy, destacando o poder da conexão entre irmãs perdidas.

Fonte da imagem: BBC

Da redação do Acontece na Bahia