Crônica de uma seca anunciada. Por Outran Borges.

 

Outran Borges. Foto: Blog Cristóvam Aguiar.

Gabriel Garcia Marques escreveu a sua “Crônica de uma morte anunciada”, onde o autor coloca o personagem central, Santiago Nasar, sob ameaça de ser assassinado. Toda a cidade sabia que tal fato viria a acontecer, e ficam dúvidas se o próprio personagem implicitamente não o sabia, e nada foi feito para que não ocorresse. Tomamos, por empréstimo, o título do escritor colombiano, para criarmos uma analogia com o que vem acontecendo no Norte e Nordeste do País, em relação à seca que vem assolando essas regiões, em nossa opinião, talvez a maior dos últimos cem anos.
No ano de 1974, quando a defesa e consequente preocupação pelo meio ambiente ainda não era “moda”, e também não havia ONGs, para se beneficiarem financeiramente dessa proposta, criamos em Feira de Santana a Associação de Livre Pesquisa Ecológica (ALPE). Havíamos feito, como matéria complementar no curso de medicina da UFBa, um curso de ecologia médica. Já anteriormente preocupado e interessado pelo tema, juntamos um grupo também de interessados e fundamos a Associação, sem nenhuma preocupação burocrática, ata de fundação e outros trâmites, já que o nosso objetivo era de uma pesquisa independente, além de constatações sobre a degradação ambiental e, se possível, discutir eventuais soluções.

A primeira incursão do grupo foi realizar uma viagem de bicicleta, margeando o rio Paraguaçú, desde a ponte localizada na BR-116 Sul, até os municípios de Itaetê e Iramaia, na Chapada Diamantina. Nessa época, ao tempo em que fazíamos pequenas palestras de conscientização nas comunidades ribeirinhas, já pudemos constatar o assoreamento do rio, por conta do desenfreado desmatamento, principalmente para a produção de “dormentes”, que, para quem não conhece, são troncos de madeira lavrados, que dão sustentação aos trilhos das estradas de ferro.
Convém salientar que uma ferrovia margeia, nesse trecho, o rio Paraguaçu.  Sabemos que a manutenção das árvores, principalmente as de grande porte, são essenciais ao equilíbrio ambiental, sobretudo para proporcionar a troca de gases (oxigênio e gás carbônico) e principalmente para assegurar um bom índice pluviométrico, e isso pode ser constatado na região amazônica, onde ainda chove regularmente.
Atualmente, continua o desmatamento de forma equivocada, quer seja por falta de conhecimento de fazendeiros, para a criação de pastagens, de agricultores, principalmente para a produção de grãos (soja, milho, feijão, algodão), de movimentos sociais, como o MST, para a obtenção e venda de estacas, uma vez que quase não existe produção agrícola nos assentamentos, talvez em decorrência da própria estiagem; e o pior: os organismos de defesa ambiental (Ibama) ou mesmo as organizações não governamentais  (Greenpeace, etc.,) parecem não se importarem muito com esses atos. Por isso tudo, acreditamos, a seca é essa “morte anunciada” que todo mundo sabe, mas ninguém toma nenhuma providência efetiva para evitá-la.
No ano de 1982, nós do ALPE navegamos o rio São Francisco, de Juazeiro, na Bahia, até Pirapora, em Minas Gerais, onde fizemos algumas constatações sobre o “Velho Chico” (outra possível “morte anunciada”). Mas isso é outra história.

Categoria(s): Artigos.

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