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Crianças superinteligentes podem ir mal na escola; entenda

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Era uma tarde de domingo e Fernanda Moura assistia à TV ao lado do filho, João Marcelo. A mãe já estava boquiaberta de ver a criança ler em voz alta, pela primeira vez, palavras soltas como ‘amor’ e ‘vida’ que apareciam em flashes na tela.

Foi quando uma frase se fixou na tela. João deu um pulo do sofá e apontou a frase com o dedinho. “Mamãe, olha, mamãe! ‘A incrível história de amor de dez anos de Elenice e Allan’”, lendo tudo numa respirada só.

A cena emocionante de ver o filho lendo a primeira frase completa acontece em muitas famílias. Mas, nesse caso, há um diferencial. João tinha na época apenas 3  anos. O esperado, segundo especialistas, é que crianças só leiam a partir dos 5 anos.

“Ele era muito novo. Nunca tinha lido nada para mim e, de repente, lê uma frase inteira? E não foi uma frase qualquer, sabe? Estava cheia de palavras difíceis: ‘incrível’, ‘história’, ‘Elenice’. Na hora falei para mim mesma: ‘meu Deus, o que é isso?”, conta Fernanda.

Esse caso tem nome: altas habilidades. No popular, João é um ‘superdotado’, mas os especialistas não recomendam mais este termo. Em resumo, trata-se de uma criança com cognição muito acima do padrão e que desenvolve habilidades antes do esperado para a idade – como a leitura.

Para um leigo, a palavra ‘superdotado’ pode remeter a uma criança que adora estudar, tem muita atenção em sala de aula e quase sempre tira nota 10. Ou seja, uma criança que não vai dar ‘dor de cabeça’ aos pais na escola.

Não é bem assim. “Uma criança com altas habilidades  necessita de cuidados especiais. Os riscos que ela corre podem ser equivalentes ao de uma criança com deficiência de aprendizado”, alerta a psicóloga infantil Lise Freitas.

“Os pais costumam ficar animados de ter um filho com altas habilidades, como se a criança fosse capaz de se desenvolver sozinha. Não dão a atenção que ela precisa por acharem que já tem tudo. Mas há riscos graves de evasão escolar, de mau rendimento, isolamento social e até depressão infantil”, completa.

O termo superdotado não é mais recomendado pelo risco de uma conotação negativa: pela ideia que o ‘super’ tem no dia a dia, pessoas com altas habilidades podem ser alvo de expectativas exageradas, como se fossem superpessoas.

Tarsila* vivenciou isso com o filho, Cândido*: “Chegou uma idade que ele só pensava em ser igual, em se integrar aos colegas. Foi uma fase muito dolorosa e difícil. Ele ia chorando no carro até a escola. ‘Mãe, quero ser como todo mundo, por que sou diferente?’. Ele me implorava. Foi muito chocante, porque não sabia o que fazer”.

Cândido também tem altas habilidades. E a descoberta não foi menos incrível. “Com um ano e sete meses ele sabia o alfabeto todo, até de trás para frente. Com o tempo, foi lendo algumas coisas, mas não tinha mostrado nada escrito”, conta Tarsila.

“Um dia, cheguei em casa e o encontrei brincando com papel e lápis. Ele tinha desenhado um mapa da América do Sul completo, com os nomes de todos os países nos lugares certos: Brasil, Argentina, Peru, Bolívia… Ele tinha quatro anos na época”, lembra.

O paradoxo
Como crianças com talentos tão especiais chegam a chorar para serem iguais? Primeiro, é preciso entender quais as necessidades dessas crianças. A mais óbvia está no ensino. Se aprendem a ler ou a calcular, por exemplo, antes da idade esperada, não faz sentido seguirem o ritmo de aprendizado padrão da escola.

“Se a criança não for habituada a saciar a sede de conhecimento que ela tem, ela vai perder o interesse pela escola. O risco é o mesmo da criança com rebaixamento cognitivo ou com déficit de atenção”, alerta Lise.

Crianças com altas habilidades vivem, portanto, um paradoxo: ao mesmo tempo em que são muito mais inteligentes que o normal, correm um sério risco de fracasso escolar. “Se a criança não for diagnosticada e não for estimulada na escola, ela pode ter notas muito baixas”, explica a pedagoga Dartilene Andrade, especialista em superdotados.

“Tudo o que está sendo apresentado, ela já domina de trás para frente, então não interessa mais em aprender. Pode iniciar aí um processo de recusa, dela achar chato ir à aula. Assim, existe risco até de abandono escolar”, acrescenta.

Nessa relação de confiança com os pais, as escolas têm três obrigações: identificar as altas habilidades, solicitar a avaliação de um especialista quando houver suspeita e, se confirmada a superdotação, adaptar-se ao aluno especial.

Outro risco: a criança superdotada pode ser confundida como portadora de déficit de atenção. “Os sinais são iguais. A criança com déficit de atenção não consegue focar na aula. Com a criança de altas habilidades, o que está sendo ensinado pode não gerar interesse, então ela também pode se mostrar dispersa em sala”, explica Lise Freitas.

Aqui está uma das maiores carências dos educadores, seja da rede privada ou pública. “Os professores não sabem identificar alunos com altas habilidades, eles estão invisíveis. Existem mitos que circundam o assunto de que o superdotado é um gênio, que se comporta em sala de aula, que adora estudar… Isso não procede”, esclarece Dartilene.

Sim, educação especial
Que ensino as escolas devem oferecer aos alunos com altas habilidades? Não há mistério: nada mais do que a formulação de uma educação de currículo personalizado.

Trata-se de educação especial. Este termo geralmente é usado para caracterizar o ensino voltado para crianças com dificuldades de aprendizado, mas também é apropriado para tratar das que possuem altas habilidades.

“Existe um estigma de que a educação especial se refere à deficiência. Ora, o que põe a pessoa como alvo da educação especial é que ela destoa da média, tem uma necessidade que o método comum não contempla. Por isso que jovens com inteligência acima da média também têm direito à educação especial”, explica Dartilene Andrade.

A ideia, segundo a especialista, é elaborar um currículo acadêmico customizado. Estas crianças, geralmente, apresentam altas habilidades em uma ou duas áreas, tendo as demais dentro da média cognitiva esperada para a sua idade.

De posse do ‘laudo’, documento emitido por profissionais especializados que contém um ‘mapa’ das habilidades mais desenvolvidas do aluno, o educador deve montar o currículo. O objetivo é montar atividades que deixem a criança constantemente desafiada naquilo em que ela tem cognição acima da média e atrair interesse para onde não tem.

Risco de isolamento
É comum que jovens com altas habilidades sejam taxados como diferentes, ou mesmo se considerem como tal. Daí, os riscos de sofrerem bullying ou de se afastarem da convivência com pessoas da mesma idade são enormes.

“Crianças com altas habilidades, geralmente, se sentem fora de contexto nas conversas das crianças de mesma idade. Ao mesmo tempo, são crianças que não se interessam tanto pela brincadeira comum”, revela Lise Freitas.

“Ela não tem interesse nas outras crianças e as outras crianças não se interessam por ela. Daí, a criança procura mais os adultos – pais, tios, professores – para conversar, o que desenvolve um isolamento da sua faixa etária”, completa a psicóloga.

Foi isso, em parte, o que ocorreu com Cândido. Tarsila conta que no primeiro ano do filho numa escola de Salvador, a instituição, a fim de atender às necessidades do garoto, criou atividades de interação dele com as outras crianças: “Ele tocava piano para os colegas, dava aulas como monitor de Geografia e História, suas paixões”, conta.

“No segundo ano, não sei o que houve, mas as atividades pararam. E aí ele começou a querer ser igual a todo mundo. E ele tem um certo bloqueio até hoje”, acrescenta a mãe.

Cândido tinha uma particularidade: estava com seis anos e cursava o 3º ano do ensino fundamental, com crianças de oito. A aceleração é prevista em lei e só acontece mediante a apresentação do laudo de altas habilidades. Mesmo assim, segue como um tabu.

Alguns educadores alertam que a aceleração exagerada pode trazer prejuízos por colocar uma criança mais nova em convívio com mais velhas. “Ela pode exercer muito pouco do que é importante para ela naquele momento, que é brincar, um aprendizado mais lúdico”, diz Lise Freitas.

“As escolas têm pavor de trabalhar esse tema, dizem que queima etapas da criança. Mas existem 18 tipos de aceleração. A criança pode ficar em sala de aula com colegas da idade dela, mas recebendo tarefas de séries mais a frente”, rebate Dartilene Andrade.

Por onde começar?
É normal que, a essa altura, muitos pais tenham curiosidade de saber se seus filhos têm altas habilidades. Mas, cuidado: estamos trazendo casos de crianças que possuem QI acima de 150, quando a média do ser humano é 100. Por isso, o diagnóstico clínico segue critérios rigorosos.

O psicólogo infantil Alessandro Marimpietri é um dos que examinam crianças superdotadas em Salvador. “Sugiro conversar com a escola e com o pediatra para ver se a suspeita é robusta para que seja feita uma avaliação especializada. Não se trata apenas de uma inteligência avançada ou de uma habilidade incrível em um campo, mas de uma gama ampla de critérios. O melhor é sempre a avaliação profissional”, esclarece.

Depois de ouvir os psicólogos, Tarsila levou Cândido a uma consulta na Associação Paulista para Altas Habilidades/Superdotação (APAHSD), em São Paulo, entidade referência no país. O garoto tinha quatro anos. Hoje, tem 14.

Lá, ele foi diagnosticado e recebeu o laudo com as áreas em que possuía cognição acima do esperado. “Fiquei muito aflita. Tudo o que está dentro da média é fácil, você sabe como proceder. Quando foge da média, você precisa estudar o que vai fazer”, conta Tarsila.

No laudo de Cândido, a APAHSD deu aval para que ele fosse acelerado em um ano. Com quatro anos ele lia e escrevia naturalmente, mas pelo ritmo convencional ainda iria para o Grupo 5, série que fica um ano antes da alfabetização.

Com o laudo em mãos, o passo seguinte foi o mais difícil: “Sabia que em Salvador ele não teria um local de acolhimento. Em São Paulo, a APAHSD oferece atividades no turno oposto ao da escola. Penso até hoje que ele teria um aprendizado que não teve aqui”, lamenta-se Tarsila.

As dores e delícias
Tarsila conta que, até hoje, não tem com quem compartilhar as delícias e aflições de ser mãe de uma criança com altas habilidades – simplesmente por ser a única mãe de um superdotado que ela conhece.

“Tem aquela fase em que você tem o seu primeiro filho e os seus amigos também. Aí ficam dizendo ‘meu filho fez isso, meu filho fez aquilo’. Chegou-se a um ponto no qual Cândido fazia coisas tão diferentes dos outros que a gente decidiu parar de compartilhar”, conta a mãe.

Fernanda concorda: “Quando você se prepara para a maternidade, prepara-se para dar à criança um ensino constante, gradual. Você sente que vai ter muita coisa a ensinar a ela. Então, quando você vê o seu filho pulando várias etapas nesse ritmo e nesse sentido, é algo muito surpreendente, uma experiência muito marcante”.

Cuidados que os pais precisam ter
Não tratar a criança como uma ‘atração de circo’
Os pais devem evitar ao máximo tratar as altas habilidades do filho como algo excepcional: “Alguns pais podem tratar a criança como uma atração de circo. ‘Escreve aí tal palavra’, ‘faz aí essa conta de cabeça’. A criança pode achar que o pai gosta da habilidade, e não dela”, conta Lise Freitas.

Pais não podem ‘fugir’ das perguntas
Crianças com altas habilidades possuem curiosidade fora do padrão. Sendo assim, exigem paciência fora do padrão. “O João tem milhões de perguntas, no começo até ficava cansada. Desconfia de tudo o que ouve, deixa a gente até sem graça. Tenho que me esforçar para dar as respostas que atendam ao João, porque ele não aceita qualquer resposta”, revela Fernanda.

Questionar tudo não significa desobediência
O hábito da criança de questionar tudo pode ser interpretado como desobediência. Punir a criança pode levar a um trauma, assim como mostrar impaciência. É preciso muito jogo de cintura: “quando estou com pressa e peço para ele adiantar, João põe a roupa devagar, dança, ‘tira uma onda’ comigo. Com o tempo, aprendi que ser questionador é parte do superdotado, então hoje entro na dele”, diz Fernanda.

Sinais costumam aparecer até os 6 anos
Os sinais de altas habilidades costumam surgir até os 6 anos. A criança mostra um interesse precoce por determinadas áreas – justamente nas quais possui desenvolvimento acima do esperado. “Tive um paciente que, com um ano e pouco, já identificava animais como ‘sabiá-coleira’, passava horas vendo catálogos de animais. Costumam ser crianças com desenvolvimento de fala muito grande”, avalia Lise Freitas.

Os desenhos
Esta matéria é ilustrada com desenhos de crianças com altas habilidades que responderam a uma pergunta: como você se enxerga? O desenho foi escolhido por ser uma das vias mais importantes de manifestação e exercício da superdotação. Também ajuda na terapia psicológica, mostrando como elas se sentem

(Fonte: Correio)

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