Artigo Semanal: Sexo, gênero e sexualidade.

 

Com todas as discussões polêmicas relacionadas à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, à criminalização da homofobia e aos direitos humanos, as temáticas que dizem respeito à sexualidade têm sido amplamente debatidas; entretanto, ainda existem muitas dúvidas sobre o assunto, sobretudo quando envolvem a questão do sexo e do gênero.
Sexo, gênero e sexualidade são conceitos interdependentes; contudo, é importante dissociá-los para obter um melhor entendimento.
Sexo nada mais é do que o termo utilizado para se referir às características sexuais concretas dos seres vivos. Entre os seres sexuados, há machos e fêmeas, mas também alguns tipos de intersexuais (conhecidos também como hermafroditas, embora o termo possa ser considerado ofensivo quando utilizado para designar seres humanos). Essa palavrinha – sexo – engloba todo o universo científico de cariótipos (cromossomos) e órgãos sexuais internos e externos; ou seja, questão básica de biologia.

Entretanto, “sexo” e “gênero”, em diversos idiomas e em diversas parte do mundo, são frequentemente utilizados de maneira errônea como sinônimos – essa confusão é muito comum em questionários pessoais onde há um marcador de gênero ou sexo -; todavia, é importante saber que possuem significados distintos..

Gênero é a palavra dada a uma construção cultural de papeis sociais, envolvendo aparência, comportamento e atividades esperados de um indivíduo de acordo com o seu sexo. Por exemplo: antes de nascer, define-se o sexo de um bebê de acordo com a sua genitália. Mas, ao descobrirem que estão esperando um menino, os pais da criança não estão antecipando apenas um ser de cariótipo XY (normalmente associado aos machos) que possuirá um pênis e produzirá esperma ao atingir a puberdade; mais do que isso, os pais esperam um rapaz que possuirá um nome masculino, vestirá roupas masculinas, praticará atividades masculinas e se tornará um homem. Isso é uma associação equivocada de gênero e sexo.

Nesse momento, é importante lembrar que, embora a grande maioria das espécies sexuadas sejam machos e fêmeas, o universo não é tão preto e branco. Há diferentes tipos de intersexualidade reconhecidos pela medicina e os estudos de sexualidade e gênero ainda buscam desvendar uma infinidade de mistérios. Para elucidar melhor a questão, há, por exemplo, indivíduos XX – normalmente associado às fêmeas – que, devido à hipersensibilidade a hormônios masculinos, desenvolvem um micropênis durante a gestação. Há indivíduos XY que, ao contrário, não desenvolvem e nascem com uma vagina. Há os convencionalmente chamados de “hermafroditas verdadeiros”, com testículos e tecido ovariano (ainda que alguns estudiosos possam considerar o termo inadequado, devido à ineficácia reprodutória desses órgãos). Indo um pouco além no horizonte, há mulheres com barba e homens com voz fina.
Todas essas diferentes condições podem gerar confusão na cabeça das pessoas, sobretudo graças aos preconceitos e à carga cultural que a sociedade carrega. O problema fica mais grave quando, devido à pressão sociocultural, sentimos a necessidade de enquadrar todo e qualquer ser dentro de uma lógica binária. A binária de gêneros, construída há milênios (desde que a sociedade começou a dividir as tarefas entre homens e mulheres), existe de forma predominante em quase todo o mundo, com exceção de algumas tribos indígenas e africanas e de algumas culturas orientais, que aceitam pessoas com um terceiro gênero; e essas afirmações sobre o que é “masculino” ou “feminino” quase sempre apresentam uma diferenciação discriminatória, sobretudo graças à sociedade patriarcal em que nos encontramos.


É por isso que, ao nos depararmos com uma mulher que trabalha na aeronáutica ou um homem que gosta de moda, nos surpreendemos. Os costumes relacionados aos gêneros vêm decaindo a cada década, mas ainda há muito para derrubar. Por que somente mulheres podem usar maquiagem? Por que quase todos os políticos são homens? E essa binária é tão restritiva, que mesmo bebês saudáveis que nascem intersexo são frequentemente submetidos às cirurgias de redesignação sexual, antes mesmo de terem idade para dar seu consentimento. Meninos que nascem com micropênis várias vezes são operados e criados como meninas, e muitas garotas com clitoromegalia – uma condição em que o clitóris é maior do que o considerado normal – possuem parte de sua genital removida.

Essas reflexões servem para que percebamos que nem todos se encaixam nas normas previstas socialmente. Entramos então em outro aspecto muito singular da humanidade, que são aqueles a quem foi dado o nome de transgêneros. E, sabendo que, embora seja associado ao sexo, o gênero é uma condição social, não é muito difícil entender o conceito; uma pessoa transgênero é alguém que se identifica com um gênero diferente daquele que lhe foi associado ao nascimento. Parece difícil? Mas não é.

Transgênero pode ser aquela menina que se identifica mais com o universo masculino e pede pronomes de acordo. Pode ser a pessoa que prefere pronomes neutros. Pode ser também aquele rapaz que se sente andrógino, ou que acha que possui características marcantes de dois gêneros ou mesmo nenhum. Assim como existem os gêneros musicais, diferentes seres humanos podem identificar-se com gêneros diferentes, e não é necessário identificar-se em nenhum pré-existente, pois é algo fluido.

Os transgêneros mais conhecidos no Brasil são as travestis – indivíduos que quase sempre nasceram XY e possuem características sexuais masculinas, mas sentem-se como pertencentes ao universo feminino. Cada travesti possui sua autoidentificação, e enquanto muitas sentem-se mulheres, outras sentem-se como homens, e várias vezes assumem uma identidade feminina e outra masculina. E, assim como mulheres que esperam ter seios fartos podem colocar silicone e há homens que vão para a academia em busca de uma maior massa muscular, os transgêneros muitas vezes sentem a necessidade de ajustar seus corpos, sem que necessariamente sintam-se na obrigação de modificar sua fisionomia para ficar estritamente parecida com a do sexo oposto; afinal, a diversidade de gênero é infinita e não há absolutamente qualquer regra de comportamento, fenótipo ou vestimenta que possa ou deva ser imposta.

É importante saber, nesse momento, que não é somente porque aquela sua amiga gosta de futebol e “fala grosso” que ela é transgênero. Ser homem e mulher pode ser muito mais do que isso, e o gênero de uma pessoa cabe apenas a ela mesma; a única maneira de saber o de uma pessoa é através da autoidentificação, e ninguém poderá definir o seu por você.

E isso leva a discussão ainda a outro ponto, pois, mesmo que o termo transgênero sirva para muitos como um termo “Guarda-chuva” (do inglês “umbrella term”), ou seja, uma concepção que abrange todo o universo dos incomuns de gênero (incluindo intersexuais), há transexuais que reivindicam uma categoria própria. Afinal, explicando de modo vulgar, enquanto que a pessoa cissexual é aquela que identifica-se com seu sexo biológico, o transexual é aquele que, por algum motivo ainda não descoberto, “nasceu no corpo errado”. Ou seja, não somente se identificará com outro gênero, mas com outro sexo. Para essa situação, existem duas soluções; e como mudar a mente é eticamente incorreto, muda-se o corpo.

A já citada cirurgia de redesignação sexual (cujo nome popular e nada cortês é “mudança de sexo”) é o procedimento mais conhecido. Pessoas transexuais, no entanto, enfrentam toda uma burocracia para conseguir uma transição. A começar que muitos sabem desde a infância, mas muitos pais e leis de diversos países proíbem a hormonização antes dos dezoito anos. Para alguns poucos afortunados, bloqueadores hormonais previnem a puberdade de acontecer até que tenham idade legal para decidirem o que fazer com seus corpos; então, normalmente são necessários dois anos de terapia com um profissional e o diagnóstico de um psiquiatra avaliando o que é conhecido por “disforia de gênero”, que se trata do sentimento de desconforto ou insatisfação com os caracteres sexuais do próprio corpo. São muitas as cirurgias que um homem ou uma mulher trans pode ter que passar até que possa sentir-se bem com sua autoestima, e esses procedimentos todos são extremamente caros e necessitam da boa vontade do profissional para atendê-lo. Nenhum seguro de saúde os cobre, pois são considerados “procedimentos estéticos”, e os pacientes muitas vezes têm que aguardar durante décadas na fila de espera do SUS.

Toda a controvérsia que surge da transexualidade refere-se à “veracidade” desses indivíduos. Muitos acham que a pessoa transexual é assim com o intuito de “enganar” as pessoas à sua volta, e o engano não poderia ser maior. Ninguém se submeteria a anos de burocracia, gastaria tanto dinheiro e correria riscos para a saúde somente por uma brincadeirinha de fantasia. Essa pessoa, quando procura adequar o próprio corpo, não faz nada mais do que tentar ser aceita pelo que é. Uma mulher trans é uma mulher, e não há porque se submeter a ser vista como um homem; é apenas uma minoria trans dentro de um universo de maioria cissexual.

Por fim, chegamos então a uma das questões atualmente mais amplamente discutidas: a sexualidade. Dentro dessa temática, o modelo mais aceito é aquele que divide as pessoas em heterossexuais, homossexuais e bissexuais. Entretanto, a sexualidade não está engessada, podendo alterar-se ao longo da vida de uma pessoa – assim como os gostos também mudam. E a própria bissexualidade – que diz respeito às pessoas que sentem atração por pessoas de ambos os sexos – se apresenta por meio de gradações.

A chamada Escala Kinsey é um exemplo clássico disso, procurando descrever o comportamento sexual de uma pessoa ao longo de determinado tempo, e apenas não é tão validada atualmente por ter deixado a problemática trans de lado. Mas não se deve esquecer que, embora essa seja a concepção mais utilizada, existem ainda denominações não tão conhecidas no Brasil, como a que caracteriza uma pessoa em “androsexual” e “gynosexual”, sendo que o androsexual sente atração por indivíduos com características masculinas, independente do sexo, e o gynosexual sente atração por indivíduos com características femininas, também independentemente do sexo. Isso explicaria, por exemplo, os rapazes que se sentem atraídos por mulheres e travestis, já que são as questões estéticas e comportamentais que, nesse caso, trazem o encanto.

E até sobre isso existe muita confusão. O preconceito não se expressa somente através dos atos de violência e condenação àqueles que sentem atração pelos indivíduos do mesmo sexo ou gênero, mas também por meio de pensamentos equivocados. A ideia de que homens homossexuais sejam todos efeminados e que as lésbicas terão sempre um comportamento convencionalmente viril é um exemplo claro desses equívocos pré-concebidos. O comportamento nada tem a ver com a sexualidade, e sim, simplesmente, com o jeito de ser de cada um.
Todos esses fatos levantam uma série de questionamentos: O que é ser homem? O que é ser mulher? Ser mulher é gostar de cor-de-rosa? Ter seios fartos? É ser fértil? Ser XX? Ser homem é gostar de futebol, gostar de carro ou ser XY? Estamos falando de sexo ou de gênero? E se uma pessoa se identifica como um gênero mas se expressa como outro? E se um indivíduo nasce com genitália ambígua? Se um homem perde o pênis, ele deixa de ser homem? Vira mulher? E o que é ser hétero? O que é ser gay? Se um rapaz sente atração por rapazes, isso faz dele “menos homem”? Mas e se for por uma travesti? Ele a vê como homem ou como mulher?

Esse estudo é muito interessante para que se possa compreender melhor o ser humano, e também para que seja possível que cada um compreenda a si mesmo. Porém, se alguém não quiser identificar como homem ou mulher, ou como hétero ou gay, tudo bem. São divisões que ajudam para que possamos nos encontrar, mas se as pessoas sentem-se bem sem elas, não há porque se rotular ou se perder em conceituações que talvez lhe pareçam desnecessárias.

Independentemente dos seus valores e filosofias, a etiqueta básica é simples: assim como não chamaria o seu amigo acima do peso de baleia, seria igualmente indelicado se referir às pessoas trans pelo pronome errado ou utilizar palavras ofensivas, como “traveco”; assim como seria totalmente inadequado chamá-las de “mulher de mentira” ou “homem capado”, e até mesmo de transexuais publicamente, sem o prévio consentimento. O mesmo vale para outras atitudes desrespeitosas, como humilhar uma pessoa por causa de seu sexo ou de sua orientação sexual; constranger uma pessoa por ser mulher ou homossexual seria tão absurdo quanto insultar alguém por possuir uma cor de pele ou religião diferente da sua. O que é realmente essencial é tratar a todos com respeito, e não permitirmos que nossos julgamentos façam com que deixemos outras pessoas diminuídas simplesmente por serem quem são.

Agnaldo Podestá é estudante de Turismo pela UNEB, ativista dos direitos dos animais.

( Gostou?  Curta  a nossa página e acompanhe nossos artigos )

Categoria(s): Artigos.

Comente: