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Artigo semanal: Religião se discute?

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Por Agnaldo Podestá.

 

Entre os principais aspectos constituintes da identidade humana, está a religiosidade. Há quem defenda, inclusive, que esse é um assunto – assim como futebol e política – que não deve ser discutido; outros, entretanto, discordam, e acreditam que não somente a temática pode, como deve ser debatida. Discorrer sobre o assunto, contudo, nem sempre é fácil, e o primeiro passo é entender o que, afinal, é “religião”.
O conceito de religião pode ser compreendido como um conjunto de princípios, de crenças e de práticas que relacionam a humanidade à espiritualidade; ou seja, trata-se de um sistema cultural com fundamentos próprios, abrangendo seitas, mitologias, doutrinas ou visões de mundo que pensem na metafísica – aquilo que está além do mundo físico, o extraterreno ou o sobrenatural.
Quando ponderamos a questão, muitas vezes nos vêm à mente as chamadas “grandes religiões”, ou “religiões mundiais”, aquelas que ganharam o maior número de adeptos em todos os continentes, sobretudo no mundo ocidental. Entre elas, destacam-se o Cristianismo – em que enquadramos tanto o Catolicismo como o Protestantismo –, o Judaísmo, o Islamismo e o Espiritismo. Essas são as mais conhecidas no Ocidente, mas muitas religiões ou seitas orientais começaram a ganhar espaço, como o Budismo, que passou a contar com muitos adeptos não-asiáticos nas últimas décadas. É interessante observar que, no caso desses credos orientais – como o Taoísmo e o Hinduísmo –, alguns estudiosos contemporâneos defendem que, na verdade, não tratam-se de religiões, por esse ser um conceito moderno aplicado apenas às religiões abraâmicas; entretanto, ainda são consideradas religiões pela maior parte dos estudiosos. E devemos lembrar que não são as únicas: há muitas, inclusive, que são pouco conhecidas e que estão envoltas em uma aparente névoa de mistérios.
Para que compreendamos a interação entre a religiosidade e o ser humano, nada mais sábio do que analisar a história. Será possível perceber, então, que desde o início da humanidade são professadas as mais diversas crenças religiosas. Mesmo durante o paleolítico, indícios podem ser encontrados, pois desde os primórdios o homem sente a necessidade de explicar aquilo que acontece à sua volta: desde o regime das chuvas e os movimentos das marés às grandes catástrofes naturais, procuram entender o mundo. Esses credos, contudo, nunca foram estáticos, mas alteraram-se em diferentes lugares e em diferentes culturas, perpassando toda a Antiguidade e as religiões que não mais existem àquelas recentemente instituídas que fazem parte do chamado “Novo Movimento Religioso”.
Mas e quanto à religiosidade no país? No território atualmente compreendido por “Brasil”, inicialmente existiam apenas as religiões indígenas, oriundas de culturas específicas e bastante variadas. Com a chegada dos europeus – sobretudo os portugueses – o Catolicismo instaurou-se e foi, por muitos anos, a religião oficial do país, e aquela que mais influenciou a organização nacional. Atualmente, embora o Estado seja laico, suas bases são judaico-cristãs, e mesmo a Constituição Federal foi elaborada a partir de premissas religiosas, devido às nossas origens ancestrais romanas e, mais recentemente, européias. Junto com o Catolicismo, os europeus não-lusitanos trouxeram o Protestantismo – ainda que, no início da colonização, de maneira pouco representativa – e, com os escravos africanos, vieram o Islamismo e, principalmente, as seitas animistas, como o Candomblé. Esses escravos, em um processo de padronização, foram forçados a converterem-se ao Catolicismo, a religião que imperava no país; inconformados, continuaram a cultuar suas entidades e orixás em segredo, muitas vezes em vestes católicas, o que teve como consequência um forte sincretismo religioso. Outras religiões, é claro, foram trazidas por diversos outros povos, e houve ainda a criação da Umbanda, considerada por muitos a verdadeira religião brasileira, por ter sido aqui fundada e graças às suas origens que misturam elementos do Catolicismo, do Espiritismo e das religiões de matriz africana.
Certo, mas que tal pensar também na atualidade brasileira? Há inúmeras religiões e seitas no país, que possuem os mais variados preceitos e ideologias. Algumas seguem, por exemplo, conceitos maniqueístas, com uma clara delimitação entre o bem e o mal; no caso de outras, não há dissociação. E há aquelas que acreditam na existência de pelo menos uma divindade, enquanto que outras são não-teístas. Essas muitas divergências que são, em diversos casos, responsáveis por deixar pessoas de diferentes credos confusas e que às vezes geram atritos, sobretudo quando uma das religiões prega a intolerância religiosa. É por isso que, embora a religião seja para muitos um guia para a moral, torna-se perigosa para a ação.
Então, voltamos à provocação inicial: Religião se discute? Por ser um assunto que remete ao substrato da mente humana, que em muitos casos está firmemente enraizado nas sólidas bases culturais, torna-se uma temática bastante delicada. A fé não necessita de lógica ou de respaldo científico, e cada um possuirá fé em algo: em Deus ou em Deuses, na natureza, no ser humano ou em si mesmo. E talvez em nada, e tudo bem, pois a fé é algo pessoal e intransferível. Contudo, fé ou religião podem sim ser discutidos, desde que, acima de tudo, exista o respeito entre as partes pelas crenças ou descrenças  alheias.

Agnaldo Podestá é estudante de Turismo na UNEB e militante contra os maus tratos contra os animais.

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