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Artigo: O Mito do Turismo Sustentável no Brasil.

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Por Agnaldo Podestá. Estudante de Turismo UNEB.

 

 

Célebre por suas incontáveis belezas naturais e por uma rica cultura formada através da miscigenação de diversos povos, o Brasil é notoriamente reconhecido por seu grande potencial turístico. Os grandes eventos planejados para acontecer no país muito contribuem para, no imaginário popular, enaltecer as possibilidades trazidas pelo Turismo, que muitos defendem ser uma das principais ferramentas para o progresso.

Esse “progresso”, entretanto, é altamente controverso, e em um mundo globalizado, com uma sociedade de consumo e onde o mercado é utilizado como argumento para as mais diversas atitudes, muitas são as discussões e críticas acerca dessa temática. Mas, para que se compreenda a problemática, é necessário primeiro entender alguns conceitos.

Turismo, por ser uma atividade socioeconômica relativamente recente e de caráter multidisciplinar, carece de estudos aprofundados. Contudo, é habilmente descrito pela Organização Mundial de Turismo como o conjunto das atividades realizadas pelas pessoas durante as suas viagens e estadas em lugares diferentes do seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano e com as mais diversas finalidades.

Outra noção importante é a de Sustentabilidade, que também pode ser interpretada de modos distintos. Mas pode-se entender que Sustentabilidade é a capacidade de o ser humano interagir com o ambiente do modo menos danoso possível, representando o equilíbrio entre as questões econômicas, sociais e ambientais.

Após entendermos esses dois conceitos, segue-se agora para um pouco de história. Até o início da década de 90, pensava-se no Turismo como uma indústria sem chaminés, em que a economia era contemplada sem que, com isso, viessem os graves impactos ambientais. A realidade, entretanto, revelou-se bastante diferente: descobriu-se que essa é uma atividade altamente impactante. Portanto, devido à pressão da sociedade que cada vez mais preocupava-se com o meio ambiente, a ideia de progresso desenfreado passou a ser arduamente combatida ao longo das décadas, e foi nesse contexto que surgiu o que muitos chamam de Turismo Sustentável ou Turismo Responsável.

Essa é uma forma de Turismo que, como o nome sugere, preza a interação harmoniosa entre a prática do Turismo e os diversos aspectos econômicos, sociais e ambientais, ideal que tem sido bastante difundido nos complexos turísticos.

Entretanto, será esse Turismo realmente sustentável?

Primeiro é importante compreender que é um equívoco acreditar que qualquer atividade econômica que vise à sustentabilidade deverá ter como pilar a preservação, pois isso é algo impossível: a partir do momento em que ocupamos espaço e temos a necessidade de nos alimentar, estamos complicando o ambiente. O verdadeiro mérito a ser alcançado é o da conservação, que tem por objetivo encontrar as ações menos danosas possíveis e que possibilitem a manutenção da economia e das relações socioambientais.

 

 

Depois, é essencial entender que esse aspecto da economia não se trata apenas de pessoas que vão para um local diferente do que habitam, pois são muitos os elementos altamente prejudiciais  para o ambiente, a começar pela própria infraestrutura necessária à manutenção dessa atividade: meios de hospedagem, locais para entretenimento e sistemas de distribuição de energia e de água, só para citar alguns exemplos. Esses componentes , por si só, já oferecem muitos prejuízos, que são potencializados quando articulados de maneira desordenada, algo que não raramente acontece no país.

Os empresários, em absoluta devoção ao capital, muitas vezes preferem caminhos que visem ao maior lucro possível, ainda que em detrimento do meio ambiente e das pessoas, e o governo comumente aparenta descaso por isso. Como consequência, surgem os inúmeros impactos negativos, desde a degradação da paisagem, da fauna e da flora, a contaminação da água dos rios e mares e o aumento da geração de resíduos sólidos, até alterações do estilo de vida da população local, que muitas vezes é obrigada a deslocar-se e torna-se marginalizada.

Grande parte do problema deve-se, sobretudo, à falta de planejamento e de estudo da compatibilidade entre as atividades turísticas pretendidas e o ambiente, sem preocupação com sua fragilidade ou capacidade de suporte de visitantes, o que faz muitos dos projetos turísticos não apenas ambientalmente danosos, mas também economicamente insustentáveis.

Entre as práticas que podem ser adotadas para evitar ou contornar essas situações, há o estabelecimento de zonas de proteção ambiental em áreas sensíveis, o planejamento responsável para o consumo de matérias-primas, água e energia elétrica, a definição de capacidade de carga, a elaboração de planos de manejo, implantação de programas de educação ambiental e, em muitos casos, a adequação da legislação ambiental às áreas turísticas de acordo com a realidade local, sobretudo visando à proteção dos atributos da natureza e a manutenção da cultura. E é um número cada vez maior o de lugares que procuram adequar-se a essa nova realidade.

E, no mundo, muitos são os locais que se esmeram em vender  uma imagem de Turismo Sustentável, como a que por muito tempo foi adotada pelo complexo hoteleiro Costa do Sauípe; na prática, entretanto, esse também é um modelo excludente que pouco tem de responsabilidade social ou ambiental.

Entretanto, raros exemplos bem sucedidos de Turismo Sustentável podem ser encontrados, inclusive, no Brasil, como é o clássico caso de Bonito, no Mato Grosso do Sul, onde um eficiente plano de manejo é colocado em prática. Outros locais, como o arquipélago de Abrolhos, devem a eficiência da proteção ao alto preço de visitação e ao fato de ser isolado do continente. Mas essa modalidade de Turismo não é encontrada exclusivamente em meio à natureza, e pode acontecer também no cenário urbano, como é o caso do segmento atualmente tão comentado de Turismo de Base Comunitária.

Em teoria, é uma forma de enxergar o Turismo que entende que é imprescindível pensar no equilíbrio dos ecossistemas e no bem-estar da população local, mas compreende também que isso não pode ser feito de qualquer jeito. Para que seja colocado em prática, é necessário saber que toda infraestrutura necessária ao turismo ou serviço utilizado para beneficiar a esse ramo da Economia é danoso, e deve ser pensado e ponderado de maneira adequada. É necessário saber que a capacidade de carga de um atrativo deve ser definida, de modo que lugar algum comporte mais pessoas do que o número adequado para a sua conservação. E é necessário saber que a economia não se sustentará a menos que o ambiente também se sustente.

Todos esses fatos permitem-nos perceber que a humanidade tem sido bastante eficiente na contaminação e na criação de problemas socioambientais, e que o Turismo, em muitos casos, apenas contribui para a depredação e ratifica a desigualdade social. Mas não precisa ser assim: existe a alternativa do Turismo Sustentável; e, ainda que enxergar essa atividade através do prisma da sustentabilidade e colocá-la em prática pareça ser um mito ou ideal intangível, não somente é possível, como deve ser a realidade de todo empreendimento turístico.

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