Connect with us

Artigos

Artigo: INFÂNCIA EM BAIXA GRANDE POR VOLTA DE 1950. Por Raimundo Matos de Leão.

...

 

 

O pensador judeu-alemão Walter Benjamin reuniu diversos fragmentos em um texto intitulado Infância em Berlim por volta de 1900. Inspirado pelo escrito, tomo de empréstimo o título, parafraseando-o, para relembrar a minha cidade natal Baixa Grande.
Fui criado entre duas tensões: Baixa Grande, alcunhada de Camisa de homem e Ipirá cujo nome de origem era Camisão. A alcunha devia-se ao formato da cidade, que na época, consistia numa grande praça central (o corpo da camisa) e uma longa rua (as mangas) que dava continuidade à estrada que vinha de Ipirá para as cidades de Mairi, Mundo Novo, Macajuba e outras. A alcunha ridicularizava o tamanho da cidade, ou pelo menos a área de maior importância naquela década.
A casa do meu avô Isalino situava-se na praça em frente a igreja, e de suas janelas vi a vida se fazendo, a minha e da cidade. Morei pouco anos em Baixa Grande, mas guardo recordações das visitas que fiz e das férias no casarão. O que eu conto aqui são recordações de um homem já avançado no tempo e que por isso mesmo embaralha fatos, esquece outros, vendo-os também como fruto da sua imaginação. Imaginação de criança. Por conta de tal situação, esta rememoração não pode ser levada ao pé da letra.
Lá se vão muitos anos, quando eu brincava no quintal do casarão com suas árvores e plantas, seu galinheiro, cuja cerca era coberta pela trepadeira Mimo do céu  Ao florescer, a cerca deixava tudo cor-de-rosa, para o meu fascínio e também o das galinhas, presumia eu na inocência da minha infância. Junto a este galinheiro, havia um espaço coberto onde meu avô abrigava o cavalo, enquanto se preparava para ir até a Boa Esperança, um sítio não muito longe da cidade. Meu avô colocava-me na frente da sela e eu, confiante, olhava o mundo ao redor. Na saída da cidade, por uma das “mangas da camisa”,  havia um córrego sobre um lajedo, que na estação das chuvas enchia-se, formando cascatas entre as pedras.
Uma outra lembrança que muito forte, motivada pelo catolicismo de minha família, é a da igreja, cuja padroeira, Nossa Senhora da Conceição era comemorada em grande estilo. E da mesma forma, a festa de São Roque, cuidada pela minha madrinha. Fascinava-me a teatralidade do ritual, os altares, suas toalhas, seus castiçais e jarros. A imagem de Nossa Senhora da Dores, ao mesmo tempo que me atraia, perturbava-me, por conta do seu semblante sofrido, uma máscara dolorida, aumentada pelo punhal  cravado no peito.
Na lateral da igreja, havia o prédio escolar, com o nome do homenageado que já não lembro, mas guardo ainda o formato de sua arquitetura e a cor amarela de sua pintura. Ainda que não tivesse estudado em Baixa Grande, frequentei a escola levado por minha tia professora. Anos depois, construiu-se um novo prédio escolar, mais distante do centro, mas sem tornar a caminhada até lá um desconforto. Era um prédio com pátios, numa arquitetura bem diferente da austeridade do prédio antigo que ficava na praça central. O prédio escolar antigo era parecido com a escola em que fiz parte, por um curto período, do meu Curso Primário em Ipirá. Curso Primário concluído no Colégio Divina Pastora – Jequitibá.
A cidade, numa baixada entre morros, proporcionava belas imagens aos meus olhos de criança. Da janela, via um morro que ficava atrás da igreja e inquietava-me o fato de que lá nas alturas se encontrasse uma casa. Era uma fazenda, diziam-me.Também chamava a minha atenção os casarões, principalmente dois ou três, cujo térreo era encimado por um andar, e aquilo era incomum numa cidade como aquela,  de interior, daquele tempo.
Ao lado da casa do meu avô, havia um dos sobrados. Numa das laterais da praça, um casarão com muita janelas era imponente e no térreo, havia uma loja. Na esquina contrária, outra loja ficava em um desnível da rua, intrigando-me.
Sem muita percepção do que eu ouvia sobre a vida política da cidade, compreendia que a mesma era dividida entre duas forças partidárias. As diferenças eram marcantes, criando tensões. Mesmo assim, a cidade era pacata e sua vida corria sem grandes sobressaltos, pelo menos para uma criança interessada em descobrir os livros na estante da minha tia, apreciar a capela no interior do casa do meu avô, brincar com meus primos ao pé da Acácia, carregada de cachos amarelos.    
Além dos parentes, conheci muitas pessoas que frequentavam a casa de meu avô. Nomeando-as, poderia cometer uma injustiça, já que não lembro mais o nome de todas. Para homenageá-las, cito apenas uma, Dona Iaiá, com seus cabelos brancos presos num coque e sua saia até o tornozelo. Mas como esquecer os sequilhos feitos por Anita e Zulima? Doce lembrança!
Ouvi muitas histórias sobre a família, seus hábitos e sua maneira de se relacionar com o mundo. Ouvi muitas histórias sobre Baixa Grande, antes do meu nascimento, mas como não fui participante de nenhuma delas, reservo-me o direito de omiti-las. Estas lembranças que o tempo não apagou fazem de mim um filho da terra, ainda que muito distante dela.

Raimundo Matos de Leão nasceu em Baixa Grande. É escritor;  artísta plático; ator; Historiador; Professor de Teatro na UFBA.

Continue Lendo
Publicidade

Acontece Na Bahia - Copyright © 2019.